O Boletim Focus do Banco Central já projeta novos cortes na Selic até 2027. Para quem pensa em comprar, vender ou captar, a pergunta deixou de ser “se” e passou a ser “quando” entrar nessa janela.
A Selic entrou em trajetória de queda, e o mercado de fusões e aquisições já reage a isso antes mesmo do corte seguinte acontecer. Segundo o Boletim Focus do Banco Central, divulgado em 5 de outubro de 2026, a mediana das projeções aponta a Selic em 13,50% ao final de 2026 (estável pela segunda semana seguida) e em 12% ao final de 2027.
Juro mais baixo muda duas variáveis que definem diretamente o apetite por M&A: o custo de financiar uma aquisição e a taxa usada para trazer o fluxo de caixa futuro de uma empresa a valor presente. Quando as duas caem ao mesmo tempo, comprar fica mais barato e vender fica mais vantajoso — o que historicamente aquece o volume de negócios no Brasil.
Os números do próprio mercado já mostram esse movimento em formação. Segundo a Pesquisa Trimestral de M&A da KPMG, o Brasil registrou 610 transações no primeiro semestre de 2026, movimentando R$ 195 bilhões: uma queda de 35% no número de negócios frente ao mesmo período de 2025, mas um avanço de 22,3% no valor agregado das transações.
Esse descompasso entre volume e valor conta a história real do momento: o mercado está mais seletivo, mas não mais frio. Menos negócios, maiores e mais bem estruturados, com capital internacional ganhando peso. Para o sócio que avalia comprar, vender ou captar, entender essa dinâmica agora define se a empresa entra na janela certa ou chega atrasada a ela.
Por que a queda da Selic muda a equação do M&A
A Selic funciona como a taxa de referência para duas contas que decidem se um negócio de M&A sai do papel: o custo da dívida que financia a aquisição e a taxa de desconto que converte o fluxo de caixa futuro da empresa-alvo em valor presente.
Quando a Selic cai, o comprador consegue financiar parte da aquisição com dívida mais barata, o que aumenta o valor que ele pode pagar sem comprometer o retorno esperado do investimento. Ao mesmo tempo, a taxa de desconto usada no valuation também cai, e isso eleva o valor presente dos resultados futuros da empresa-alvo.
O efeito prático: a mesma empresa, com o mesmo resultado operacional, vale mais em um cenário de juro baixo do que em um cenário de juro alto. Esse é o motivo pelo qual ciclos de queda de Selic historicamente coincidem com aceleração de M&A no Brasil, e também pelo qual o movimento atual já aparece nos números do primeiro semestre de 2026.
O que os números do mercado brasileiro de M&A já mostram em 2026
A leitura setorial da KPMG mostra onde o capital está se movendo primeiro. Mineração liderou o primeiro semestre, com alta de 55% no volume de negócios e R$ 47,86 bilhões movimentados, sendo que o capital estrangeiro respondeu por 99% das transações do setor. Energia saltou de R$ 2,7 bilhões no primeiro trimestre para R$ 18,2 bilhões no segundo, puxada por bioenergia e megadeals de transmissão.
O setor de tecnologia, mídia e telecomunicações reforça o mesmo padrão: o volume de transações caiu 26%, mas o valor avançou 400% no comparativo anual. Isso confirma que o mercado não desapareceu — ele migrou para operações maiores e mais concentradas, com investidores dispostos a pagar mais por ativos de qualidade.
O capital internacional também ganhou peso de forma inequívoca: as transações cross-border somaram R$ 102 bilhões no primeiro semestre, um crescimento de 153% em valor mesmo com 18% menos negócios. Já as operações domésticas recuaram em volume e em valor, o que indica que o investidor estrangeiro está lendo o cenário brasileiro de juro em queda antes e com mais convicção do que boa parte do mercado local.
Como juros mais baixos afetam valuation, financiamento e apetite do comprador
Para o sócio que avalia vender, a conta é direta: valuation e taxa de juros se movem em direções opostas. Quanto mais a Selic cai, maior tende a ser o múltiplo que o mercado está disposto a pagar pela mesma geração de caixa, porque o custo de oportunidade de investir em renda fixa cai junto.
Para quem avalia comprar, o benefício aparece do lado do financiamento: dívida mais barata permite estruturar uma operação alavancada com menor pressão sobre o fluxo de caixa pós-aquisição. Fundos de private equity e venture capital já responderam a esse sinal: segundo a KPMG, o capital de PE/VC aplicado no primeiro semestre de 2026 cresceu 30,5% em valor, mesmo com retração relevante no número de operações, o que mostra concentração em teses de maior convicção.
A combinação de juro em queda com seletividade de mercado cria um cenário específico: quem chega com a empresa organizada, due diligence facilitada e governança em dia consegue capturar o prêmio da janela. Quem chega desorganizado perde tempo justamente no momento em que o comprador tem mais alternativas para escolher.
Quem sai na frente: setores e perfis de empresa mais procurados agora
Três características aumentam a atratividade de uma empresa nesse momento do ciclo:
- Setores com histórico de consolidação ativa, como mineração, energia e tecnologia: concentram a maior parte do capital que já está se movendo, segundo a leitura setorial da KPMG para o primeiro semestre de 2026.
- Empresas com governança e auditoria já estruturadas: reduzem o tempo de due diligence, o que pesa a favor no ambiente mais seletivo descrito pela própria pesquisa.
- Negócios com capacidade de atrair capital estrangeiro, seja por escala, seja por posicionamento setorial: o investidor internacional respondeu por boa parte do crescimento em valor das transações do semestre.
Como saber se sua empresa está pronta para aproveitar essa janela
A preparação para uma eventual venda, captação ou aquisição começa antes da proposta chegar à mesa:
- Organizar as demonstrações financeiras e a governança societária: devida diligência rápida é vantagem competitiva em um mercado mais seletivo.
- Rodar um valuation atualizado considerando o cenário de juros em queda: o valor de referência de seis meses atrás já não reflete a taxa de desconto atual.
- Mapear a estrutura societária e eventuais passivos ocultos: pontos que travam negociações normalmente aparecem tarde demais quando não são antecipados pela própria empresa.
- Avaliar o momento certo dentro do próprio ciclo de maturidade do negócio: nem toda empresa pronta financeiramente está pronta societariamente, e o inverso também é verdadeiro.
Como a Alianzo acompanha o momento do mercado de M&A
A Alianzo acompanha o ciclo de juros e o comportamento do mercado de fusões e aquisições como parte do mesmo diagnóstico que orienta empresas em decisões de compra, venda e captação: a pergunta nunca é só “quanto vale a empresa”, mas “o que esse valor significa dentro do momento de mercado atual”.
O time de M&A e Finance da Alianzo conecta a leitura macroeconômica, como a trajetória da Selic e o comportamento setorial de transações, ao diagnóstico específico de cada cliente: organização societária, valuation, due diligence e estrutura de capital. Esse cruzamento é o que transforma um dado de mercado em decisão estratégica concreta.
Entender o ciclo de juros não substitui a preparação da empresa para uma transação. Mas ignorar esse ciclo custa caro: valuations são sensíveis à taxa de desconto, e quem só reage ao mercado perde a parte da negociação que se decide antes de qualquer proposta chegar à mesa.
Por que a queda da Selic aumenta o valor das empresas em processos de M&A?
Porque a Selic influencia diretamente a taxa de desconto usada no valuation. Quanto menor a taxa, maior o valor presente do fluxo de caixa futuro da empresa, o que eleva o valuation para o mesmo nível de geração de caixa.
O volume de M&A no Brasil já está crescendo em 2026?
caiu 35% no primeiro semestre de 2026 frente a 2025, segundo a KPMG, mas o valor total cresceu 22,3% no mesmo período. O mercado está mais seletivo, concentrado em negócios maiores, não necessariamente mais aquecido em quantidade.
Juro baixo favorece mais o comprador ou o vendedor?
caminhos diferentes. O comprador financia a aquisição com dívida mais barata; o vendedor se beneficia de um valuation mais alto, porque a taxa de desconto cai junto com a Selic.
Minha empresa precisa esperar o ciclo de queda terminar para se preparar?
Não. A preparação (organização financeira, governança, valuation atualizado) precisa acontecer antes da janela se abrir totalmente, porque o mercado mais seletivo privilegia quem já chega organizado à negociação.