Na mesma semana, o IBGE mediu a inflação e o Banco Central decidiu os juros. As duas respostas já existem, e juntas mudam uma conta simples para quem fecha o orçamento de 2027: separar o custo que passa do custo que fica.
O IBGE divulgou, em 23 de outubro de 2026, o IPCA-15 de outubro, a prévia mensal da inflação oficial: alta de 0,32% no mês, menos da metade dos 0,70% registrados em setembro. À primeira vista, parece um alívio.
O detalhe que muda a leitura é o acumulado em 12 meses, que subiu de 4,47% para 4,62%. Esse número ultrapassou o teto da meta contínua de inflação, de 4,5% ao ano: o limite que o Conselho Monetário Nacional estabelece para a alta de preços no país, e que o Banco Central usa como referência para decidir os juros.
Um mês mais fraco dentro de um acumulado mais forte é o primeiro sinal de que o impacto da inflação no orçamento empresarial não se resolve olhando só para o número cheio. O que importa é a composição: qual parte do aumento tende a sumir sozinha e qual parte veio para ficar em 2027.
Essa prévia de outubro chegou na mesma semana em que o Copom, o comitê do Banco Central que define a taxa Selic (os juros básicos que servem de régua para o custo de qualquer crédito no país), se reuniu para decidir os rumos da política monetária. Nos dias 3 e 4 de novembro de 2026, o Copom decidiu manter a Selic em 13,75% ao ano, interrompendo uma sequência de cinco cortes seguidos. Os detalhes dessa decisão, e o que ela muda na prática para quem fecha o orçamento, estão na seção dedicada ao Copom, mais adiante.
IPCA-15 de outubro de 2026: o que os números do IBGE mostram
A desaceleração de outubro não veio de um alívio generalizado de preços. Ela veio de um único fator concentrado: a conta de luz. O resto da economia, na verdade, ficou mais caro.
O grupo Habitação recuou 0,10% no mês, revertendo a alta de 2,07% de setembro. O motivo foi pontual: a energia elétrica residencial, que havia subido 7,42% no mês anterior, caiu 0,89% em outubro, por causa da mudança da bandeira tarifária de amarela para verde. Bandeira tarifária é o aviso que a Aneel acrescenta à conta de luz quando o sistema elétrico está sob mais pressão; a bandeira verde significa que esse acréscimo deixou de existir naquele mês.
Enquanto a energia puxou o índice para baixo, a Alimentação e bebidas puxou para cima, com alta de 0,88%. O tomate liderou o movimento, com alta de 24,54% só no mês; cebola e batata-inglesa subiram, respectivamente, 13,63% e 10,96%, seguindo o mesmo padrão de hortaliças pressionadas por quebra de safra. O arroz, item de peso maior no consumo das famílias, avançou 5,80%.
Do lado oposto, a cenoura caiu 10,67%, um lembrete de que o preço de hortifrutigranjeiros sobe e desce rápido, sem direção fixa, de um mês para o outro.
Transportes sobem com combustíveis, mas passagens aéreas recuam
O grupo Transportes avançou apenas 0,05% no mês, resultado de duas forças que se cancelaram quase por completo. Os combustíveis ficaram mais caros (diesel, etanol e gasolina subiram entre 0,92% e 3,70%), enquanto as passagens aéreas caíram 9,24%, a maior queda do mês.
Para empresas com frota própria ou logística terceirizada, a alta do diesel pesa direto no custo operacional. Já a queda nas passagens aéreas beneficia companhias com equipes que viajam com frequência, como as de vendas B2B ou auditoria em múltiplas praças.
O impacto da inflação no orçamento empresarial começa onde o índice cheio termina
Fechar o orçamento de 2027 com a hipótese de que o custo de insumos vai ceder, só porque o índice de outubro desacelerou, é um erro de leitura. O acumulado de 4,62% em 12 meses segue acima do teto da meta, e a origem da queda de outubro não sustenta uma trajetória de alívio.
A diferença está na natureza de cada movimento. A energia elétrica caiu por causa da bandeira tarifária, um fator que reverte a qualquer mudança no sistema elétrico; já a alta de alimentos reflete oferta apertada em hortaliças e grãos, um padrão que costuma durar mais tempo. Em outras palavras: o que caiu é volátil por natureza, e o que subiu tem raiz em oferta, não em um pico passageiro de demanda.
Para empresas de alimentação, varejo e food service, essa diferença chega direto na planilha de custo: um índice cheio puxado para baixo pela energia não é sinal de que o insumo vai ficar mais barato no curto prazo. A projeção de margem para 2027 deve manter a hipótese de pressão de custo nesse grupo.
Decisão do Copom de novembro: a Selic parou em 13,75% ao ano
O Copom se reuniu em 3 e 4 de novembro de 2026 e decidiu, por unanimidade, manter a Selic em 13,75% ao ano. A decisão interrompeu uma sequência de cinco cortes seguidos de 0,25 ponto percentual, aplicados entre março e setembro, e surpreendeu parte do mercado, que apostava em mais um corte.
O comitê justificou a pausa por um cenário de maior incerteza, com moderação da atividade econômica e risco de inflação com viés de alta, segundo o comunicado divulgado pelo Banco Central ao fim da reunião (a ata detalhada ainda não havia sido publicada no fechamento desta revisão; o resultado foi confirmado por ampla cobertura jornalística do dia seguinte, conforme detalhado na nota de validação ao final deste documento).
Pense na Selic como o preço que o próprio governo paga para tomar dinheiro emprestado. Como é o juro mais seguro do mercado, ele vira a régua para o custo de qualquer outro crédito no país, do financiamento de uma máquina ao limite do cartão empresarial. Quando essa régua para de cair, o custo de uma dívida nova, ou de uma dívida antiga indexada ao CDI, também para de cair junto.
Antes da decisão, o Boletim Focus (a pesquisa semanal em que o Banco Central reúne as projeções de dezenas de bancos e consultorias para orientar o mercado) indicava, na edição de 26 de outubro, uma Selic encerrando 2026 em 13,25% e 2027 em 11,75%, com o IPCA do ano fechando em 5,19%, acima do teto da meta. A pausa de novembro mostra que esse processo de queda está mais lento, e menos garantido, do que essas projeções sugeriam.
Essa combinação de inflação acima da meta e Selic parada afeta três decisões do CEO: o custo de capital para investir, o custo de carregar dívida já contratada e a taxa de desconto usada para avaliar projetos no orçamento de 2027. Quanto mais tempo a Selic ficar em dois dígitos, mais caro fica adiar a renegociação de passivos financeiros.
Repasse de preços: o dilema de quem vende alimentos, opera no varejo ou presta serviços de alimentação
A alta de 0,88% em Alimentação e bebidas chega direto à mesa de decisão de precificação. Imagine uma rede de restaurantes que compra tomate toda semana: se o preço sobe 24% num único mês e o cardápio não muda, a margem daquele prato cai na mesma velocidade.
Distribuidoras, redes de varejo alimentar e operações de food service enfrentam o mesmo descompasso: compram insumos com reajuste de dois dígitos em poucas semanas, mas nem sempre conseguem repassar esse custo ao preço final na mesma velocidade. A empresa que absorve o aumento sustenta volume de vendas, mas corrói rentabilidade; a que repassa integralmente arrisca perder espaço para concorrentes que seguram o preço por mais tempo.
Na prática, a decisão raramente é tudo ou nada. Contratos de fornecimento com reajuste vinculado a índices setoriais, revisão do mix para reduzir exposição a itens voláteis e repasse diferente por canal de venda são caminhos que reduzem o impacto da inflação no orçamento empresarial sem depender de um único reajuste de tabela.
Renegociação de dívida e custo de capital: a conta que a Selic parada deixou mais cara
Com a Selic parada em 13,75% ao ano, em vez de seguir caindo como o mercado esperava, o custo de carregar dívida indexada ao CDI segue elevado por mais tempo do que muitas empresas haviam planejado no início de 2026.
É como um financiamento com juro variável: se a taxa para de cair no momento em que você projetava uma queda, a parcela do ano que vem fica maior do que o previsto. Com os juros do país, o efeito é o mesmo, só que em escala de empresa inteira: dívidas contratadas com spread alto em períodos de juros mais baixos podem hoje ter alternativas de custo menor, e projetos que pareciam viáveis com Selic a 10% ou 11% passam a exigir retorno mais alto para compensar o custo de capital atual.
Empresas que adiam essa revisão correm o risco de manter, no balanço de 2027, dívidas em condições já superadas pelo próprio mercado. Uma decisão do Copom como a de novembro costuma ser o gatilho natural para colocar essa revisão na agenda do CFO.
Fechamento do orçamento de 2027: pontos de atenção para o planejamento financeiro
A combinação de IPCA-15 em desaceleração mensal, acumulado acima da meta e Selic parada em patamar elevado pede mais do que replicar as premissas do orçamento de 2026. Quatro pontos merecem entrar na pauta de quem fecha o planejamento financeiro nas próximas semanas:
- Separar o custo volátil do custo estrutural: energia elétrica oscila com a bandeira tarifária; alimentos e combustíveis carregam pressão mais persistente e pedem premissa mais conservadora.
- Revisar o cronograma de dívida à luz do Focus: com a Selic ainda projetada acima de 11% para o fim de 2027, o custo financeiro do passivo tende a seguir acima dos patamares de ciclos de juros mais baixos.
- Testar a margem sob dois cenários de repasse: um com repasse integral do custo de insumos e outro com repasse parcial, para medir o efeito de cada escolha na rentabilidade projetada.
- Atualizar a taxa de desconto de projetos de investimento: usar o custo de capital vigente evita aprovar projetos que deixam de ser viáveis com a Selic parada em patamar elevado.
Esses pontos não eliminam a incerteza do cenário macroeconômico, mas reduzem a chance de o orçamento de 2027 nascer com premissas já defasadas em relação ao que IBGE e Banco Central sinalizaram nesta semana.
Como a Alianzo apoia empresas no planejamento financeiro em cenários de inflação e juros voláteis
A Alianzo acompanha de perto o calendário de divulgações do IBGE e do Banco Central porque ele afeta, de forma direta, o fechamento orçamentário dos mais de 2.280 clientes que atende em todo o país. Dados como o IPCA-15 e as decisões do Copom entram na planilha de custo, na taxa de desconto de investimentos e na negociação de dívida de cada empresa.
As equipes de Finance e Consultoria em Gestão da Alianzo apoiam sócios e CFOs na estruturação do orçamento anual, na revisão de premissas de custo por grupo de insumo e na análise de cenários para renegociação de passivos financeiros, sempre com base nos dados mais recentes de inflação e juros.
Esse acompanhamento evita que o orçamento de 2027 seja fechado com premissas que o próprio mercado já revisou, como aconteceu com a expectativa de corte que não se confirmou na reunião de novembro.
O que é o IPCA-15 e em que ele difere do IPCA cheio?
O IPCA-15 é a prévia mensal da inflação oficial, calculada pelo IBGE com um período de coleta antecipado em relação ao IPCA cheio. Ele antecipa a tendência de preços e costuma orientar decisões de precificação e de política monetária antes da divulgação do índice definitivo.
Por que o IPCA-15 desacelerou em outubro mesmo com o acumulado em 12 meses subindo?
Vale para empresas que apuram PIS e Cofins pelo regime não cumulativo e incluíram o crédito presumido de ICMS na base dessas contribuições. Cada caso exige verificação específica do período e do regime de apuração adotado.
Qual é o prazo para pedir a restituição dos valores pagos indevidamente?
A desaceleração mensal veio da queda na energia elétrica residencial, puxada pela mudança de bandeira tarifária de amarela para verde. O acumulado em 12 meses subiu porque a alta de alimentos pesou mais no cálculo do que essa queda pontual da energia.
O que o Copom decidiu em novembro de 2026 e o que isso muda para as empresas?
O Copom decidiu, por unanimidade, manter a Selic em 13,75% ao ano, interrompendo uma sequência de cinco cortes seguidos. A Selic define o custo de capital, o custo de carregar dívida e a taxa de desconto usada para avaliar investimentos; mantê-la parada, em vez de reduzi-la como o mercado esperava, aumenta o custo financeiro do passivo das empresas por mais tempo do que o planejado.
Vale a pena repassar integralmente a alta de alimentos para o preço final?
Não existe resposta única. Repassar integralmente protege a margem no curto prazo, mas pode custar participação de mercado; absorver o custo sustenta volume, mas comprime a rentabilidade. A decisão depende da elasticidade de preço do produto, do posicionamento competitivo e do peso do insumo na estrutura de custo da empresa.
Quando vale a pena renegociar dívida com a Selic no patamar atual?
Vale avaliar a renegociação sempre que a empresa tiver dívidas contratadas com spread elevado ou condições definidas em ciclos de juros diferentes do atual. Com a Selic mantida em novembro e o Boletim Focus ainda projetando queda lenta até 2027, adiar essa revisão tende a manter o custo financeiro acima do necessário por mais tempo.