Durante meses, as discussões sobre a Reforma Tributária estiveram concentradas em temas como alíquotas, regimes de tributação e impactos financeiros.
Mas existe uma mudança menos visível e potencialmente mais relevante para muitas empresas.
A transição para o novo modelo tributário exigirá um nível de qualidade, rastreabilidade e consistência de dados que nem todas as organizações possuem hoje.
Na prática, isso significa que a capacidade de uma empresa gerar valor durante a transição dependerá não apenas do entendimento da legislação, mas da qualidade das informações que sustentam suas operações fiscais, contábeis e financeiras.
O verdadeiro desafio da Reforma Tributária não está na legislação
Historicamente, muitas empresas trataram suas obrigações tributárias como processos essencialmente operacionais.
O foco estava em cumprir prazos, entregar declarações e atender às exigências dos órgãos fiscalizadores. Embora esses fatores continuem sendo fundamentais, a Reforma Tributária amplia a discussão para um nível mais estratégico.
Mais do que uma mudança na forma de arrecadação dos tributos, ela exige que as empresas revisitem a qualidade das informações que sustentam suas operações.
O que antes era percebido apenas como uma obrigação fiscal passa a impactar diretamente a capacidade de gerar eficiência, reduzir riscos e até capturar oportunidades financeiras.
Quando a qualidade dos dados passa a gerar valor
É nesse contexto que temas como o aproveitamento de créditos tributários ganham relevância. Em muitos casos, o acesso a esses recursos dependerá menos da legislação e mais da capacidade da empresa de comprovar, rastrear e sustentar tecnicamente as informações que lhes dão origem.
A Reforma Tributária exige que as organizações consigam validar operações, integrar dados, comprovar registros e garantir consistência entre diferentes bases de informação.
Isso transforma a qualidade dos dados em um fator estratégico para a tomada de decisão. Afinal, uma decisão tributária é tão confiável quanto as informações que a sustentam.
E esse é um desafio que vai além do conhecimento do negócio.
À medida que as operações crescem, aumentam também a complexidade dos processos, dos sistemas e das exigências regulatórias. Nesse cenário, pequenas inconsistências que antes passavam despercebidas podem se transformar em riscos relevantes ou até na perda de oportunidades que poderiam gerar valor para a empresa.
Quando os dados se tornam um risco silencioso
Em muitas empresas, as informações tributárias estão distribuídas entre diferentes sistemas, departamentos e processos.
Não é raro encontrar situações como:
- divergências entre fiscal e contábil;
- parametrizações inadequadas em ERPs;
- inconsistências cadastrais;
- falta de conciliações periódicas;
- documentos sem rastreabilidade adequada;
- ausência de integração entre áreas.
Esses problemas podem permanecer invisíveis durante anos, mas em um ambiente tributário mais digitalizado, integrado e baseado em dados, eles passam a representar riscos relevantes para a operação.
O caso dos créditos de PIS e COFINS mostra por que isso é importante
Um dos exemplos mais claros dessa realidade está nos créditos acumulados de PIS e COFINS.
Muitas empresas possuem valores que podem representar oportunidades importantes de recuperação financeira e otimização tributária.
No entanto, existe uma condição fundamental: esses créditos precisam estar corretamente apurados, documentados e escriturados na EFD-Contribuições até a extinção do PIS e da Cofins. Sem esse registro, a empresa perde o direito de aproveitá-los nas regras de transição da LC 214/2025.
Isso significa que o benefício não depende apenas da existência do crédito, mas da capacidade da empresa de comprovar sua origem, sua legitimidade e sua consistência.
Por trás de cada crédito existem documentos, lançamentos contábeis, registros fiscais, parametrizações de sistemas e processos internos que precisam estar alinhados.
Quando essa estrutura não existe, o que parecia uma oportunidade financeira pode se transformar em um passivo operacional.
Durante anos, os créditos de PIS e COFINS fizeram parte da rotina tributária das empresas
Antes da Reforma Tributária, empresas enquadradas no regime não cumulativo de PIS e COFINS podiam gerar créditos sobre diversas despesas, aquisições e custos relacionados à sua atividade.
Na prática, esses créditos funcionavam como uma forma de reduzir o valor dos tributos a pagar, evitando parte dos efeitos da cumulatividade ao longo da cadeia econômica.
Embora o tema sempre tenha sido relevante, ele raramente ocupava uma posição estratégica dentro das empresas. Isso porque o foco estava na operação do dia a dia: cumprir obrigações acessórias, entregar declarações e manter a conformidade fiscal.
Enquanto isso, revisões mais profundas sobre créditos acumulados, parametrizações fiscais, consistência de dados e oportunidades tributárias acabavam ficando em segundo plano.
O que mudou com a Reforma Tributária?
A Reforma Tributária não alterou apenas a forma de cobrança dos tributos sobre o consumo. Ela iniciou a transição para o novo modelo de IVA Dual, em que a CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços) substitui o PIS e a Cofins no âmbito federal. A CBS extingue o PIS e a Cofins a partir de 1º de janeiro de 2027, conforme a LC 214/2025 . Já em 2026, a CBS roda em alíquota de teste de 0,9%, compensável com o PIS/Cofins devido.
Com isso, os créditos de PIS e COFINS acumulados ao longo dos anos passaram a ganhar ainda mais atenção. Não porque deixaram de existir, mas porque agora existe uma janela de transição para que esses valores sejam aproveitados dentro das regras estabelecidas para a migração ao novo sistema.
Isso porque a LC 214/2025 garante que esses créditos continuam válidos durante a transição, desde que a empresa consiga comprovar e sustentar cada um deles dentro do prazo. Na prática, é dinheiro recuperável para quem está organizado e há risco de perda para quem deixar para a última hora.
Foi nesse momento que muitas empresas perceberam um desafio importante: não basta saber que os créditos existem. A empresa precisa demonstrar que constituiu cada crédito corretamente, com documento, lançamento e escrituração que sustentem sua origem.
Por que tantas empresas estão olhando para isso agora?
Durante muito tempo, os créditos eram vistos como uma oportunidade tributária que poderia ser analisada futuramente.
A Reforma Tributária mudou essa percepção. Com a extinção do PIS e da Cofins marcada para 1º de janeiro de 2027, revisar informações registradas há anos nos sistemas virou uma corrida contra o prazo.
Isso significa revisar:
- documentos fiscais;
- escriturações;
- lançamentos contábeis;
- parametrizações dos ERPs;
- cadastros;
- processos internos.
Em outras palavras, a corrida atual não acontece apenas pelos créditos, ela veio para concretizar a necessidade de validar os dados que sustentam esses créditos.
A oportunidade vai além do aproveitamento dos créditos
Empresas que possuem informações organizadas, processos estruturados e dados confiáveis tendem a ter mais facilidade para identificar oportunidades tributárias, sustentar créditos acumulados e reduzir riscos fiscais.
Por outro lado, organizações com inconsistências históricas podem encontrar dificuldades justamente quando precisam transformar esses registros em benefício financeiro.
Por isso, a discussão atual não é apenas sobre créditos de PIS e COFINS, mas principalmente sobre a capacidade da empresa de confiar nas próprias informações.
E talvez esse seja um dos legados mais importantes da Reforma Tributária: mostrar que dados bem estruturados não são apenas uma exigência de conformidade, mas um ativo capaz de gerar valor para o negócio.
O que está em jogo vai além dos tributos com a Reforma Tributária?
É comum associar a Reforma Tributária apenas à área fiscal, mas seus impactos alcançam toda a gestão empresarial, afinal, dados inconsistentes afetam:
- a qualidade das análises gerenciais;
- a confiabilidade dos indicadores financeiros;
- a previsibilidade do caixa;
- a tomada de decisões estratégicas;
- a capacidade de identificar oportunidades tributárias;
- a segurança em auditorias e fiscalizações.
Por isso, a preparação para a transição tributária não deve ser encarada como um projeto exclusivamente fiscal, pois ela envolve governança, processos, tecnologia e inteligência de dados.
Empresas que começarem agora terão uma vantagem competitiva
Quanto mais complexa a operação, maior tende a ser o esforço necessário para revisar informações históricas, corrigir inconsistências e estruturar controles adequados.
Esperar a proximidade dos marcos da transição pode significar menos tempo para corrigir falhas acumuladas ao longo de anos.
Por outro lado, organizações que utilizarem esse período para fortalecer sua governança tributária estarão mais preparadas para:
- reduzir riscos;
- aumentar a confiabilidade das informações;
- capturar oportunidades financeiras;
- sustentar créditos tributários de forma segura;
- melhorar sua capacidade de tomada de decisão.
Como transformar a preparação para a Reforma Tributária em uma vantagem competitiva
Quando o assunto é Reforma Tributária, muitas empresas concentram seus esforços em entender as novas regras, alíquotas e obrigações. E embora isso seja essencial, ainda não é o suficiente, essa transição exige algo ainda mais fundamental: a capacidade de confiar nas próprias informações.
Na prática, isso significa que a preparação não deve começar pela legislação, mas pela estrutura que sustenta os dados tributários da empresa.
Por isso, entre as principais iniciativas adotadas por empresas que buscam reduzir riscos e capturar oportunidades durante esse período estão:
- Revisão da qualidade das informações fiscais e contábeis
A consistência entre registros fiscais, contábeis e financeiros se torna ainda mais relevante em um ambiente que exigirá maior rastreabilidade das informações.
Pequenas divergências que hoje passam despercebidas podem comprometer análises, dificultar auditorias e limitar o aproveitamento de oportunidades tributárias no futuro.
- Avaliação de processos e parametrizações
A qualidade dos dados depende diretamente dos processos que os geram. Por isso, muitas empresas estão revisando fluxos internos, cadastros e parametrizações de sistemas para reduzir inconsistências e aumentar a confiabilidade das informações utilizadas na tomada de decisão.
- Integração entre áreas estratégicas
A transição tributária não é um desafio exclusivamente fiscal. Ela exige alinhamento entre contabilidade, fiscal, financeiro, controladoria, tecnologia e gestão.
Quanto maior a integração entre essas áreas, maior tende a ser a capacidade da empresa de identificar riscos, antecipar impactos e capturar oportunidades.
- Transformação de dados em inteligência
Mais do que armazenar informações, as organizações precisam ser capazes de utilizá-las de forma estratégica.
Isso inclui criar visibilidade sobre indicadores, melhorar a capacidade analítica da gestão e estabelecer processos que permitam decisões mais rápidas e seguras.
É justamente nesse ponto que muitas empresas descobrem que a Reforma Tributária não é apenas um projeto de adequação fiscal.
Ela se torna uma oportunidade para fortalecer governança, aprimorar controles internos, aumentar a confiabilidade dos números e construir uma estrutura mais preparada para sustentar o crescimento nos próximos anos.
A Reforma Tributária deixa uma mensagem clara
Durante muito tempo, dados tributários foram vistos apenas como uma obrigação de conformidade. A transição para o novo sistema mostra que eles também são ativos estratégicos.
Empresas que conseguirem transformar informação em inteligência estarão mais preparadas para preservar valor, identificar oportunidades e crescer com segurança.
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Quanto maior a empresa, mais caras ficam as decisões erradas. E mais importante se torna a estrutura que apoia essas decisões.
Os créditos de PIS e COFINS acabam com a Reforma Tributária?
Não. A LC 214/2025, nos artigos 378 a 383, mantém válidos os saldos credores não apropriados ou não utilizados até a extinção das contribuições, desde que escriturados na EFD-Contribuições. A empresa pode compensá-los com a CBS, ressarci-los em dinheiro ou compensá-los com outros tributos federais.
Qual é o prazo para aproveitar os créditos de PIS e COFINS?
O direito de utilizar o crédito extingue-se em cinco anos, contados do período de apuração em que ocorreu a apropriação (art. 168 do CTN). Como o PIS e a Cofins serão extintos em 1º de janeiro de 2027, a revisão precisa começar bem antes desse marco.
O que acontece com os créditos que não estão escriturados?
O caput do art. 378 da LC 214/2025 condiciona a validade do crédito ao registro na escrituração. Créditos que existem na operação mas não estão escriturados ficam expostos a questionamento, por isso a recomendação é revisar e regularizar a escrituração antes da extinção das contribuições.
Por que a qualidade dos dados importa nesse processo?
Porque o aproveitamento do crédito depende de comprovar origem, legitimidade e consistência. Quando documentos fiscais, lançamentos contábeis e parametrizações de ERP não conversam entre si, o que seria recuperação financeira vira passivo operacional.